sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Há como mensurar cansaços?

Havia me esquecido o que é viver um verdadeiro cansaço.

Não o mero cansaço físico, de pernas e costas doendo, de pálpebras pesadas.
Não o mero cansaço de um trabalho estressante e às vezes repetitivo.
Não o mero cansaço de prazos que se esgotam e daquela sensação que você não fez o melhor.
Não o mero cansaço de pessoas, daqueles que fatigam o espírito, corrompe suas virtudes e realçam seus defeitos.
Não o mero cansaço de si próprio, em que você já evita pensar sobre si para não se decepcionar ainda mais.
Não o mero cansaço dos problemas alheios que não há como você resolver, mas que permanecem lhe atormentando.
Não o mero cansaço que vem da insegurança, da ansiedade, da descrença.

O verdadeiro cansaço é aquele em que todos estes cansaços cotidianos, diários, até inofensivos, se juntam e se intensificam. É o cansaço que não lhe permite dormir direito, que o deixa irritadiço, que dá vida a fantasmas que pensava superados, que questiona seu presente e prognostica um futuro ruim.
Quando se cansa tanto assim, não adianta uma noite de descanso, de pouco vale um sonho prestes a se realizar. O cansaço não lhe deixa ver nada muito além dele próprio: O CANSAÇO.

Segunda-feira, uma das grandes motivações do meu cansaço será repassada a outras mãos, para que avaliem meu empenho. Meu empenho será avaliado, mas ninguém medirá meu cansaço.

Há como mensurar cansaços?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Escrever menos

Estou escrevendo menos no blog porque ando escrevendo demais em todo lugar.

Escrevo muito no jornal para ganhar meu pão, para exercitar minha vocação, para sentir um pouco mais de sentido no que faço e na vida que escolhi e que me escolheu.

Escrevo muito em casa para tentar suprir minhas deficiências de pesquisador, minha ignorância diante de tanta sabedoria, para refletir a respeito de meu ofício, para tentar dar algum tipo de contribuição menos efêmera. Não escreveria por títulos, porque neles não tenho tanta fé. Sou jornalista e sei que títulos podem ser mentirosos. Escrevo muito para não sentir que esteja fazendo parte de uma mentira assim.

Escrevo muito a toda hora porque tenho escrito mais a pessoas de quem tenho saudade, que me fazem muita falta, que quando vejo de perto, às vezes apenas uma vez por ano, dá vontade de abraçar e ficar grudado. Escrevo a eles para demonstrar meu carinho e para que não se esqueçam de que fazem parte de minha vida, em lugar especial.

Escrevo muito (agora menos, é verdade) sobre o que vejo na rua, mas que não é notícia. É apenas o trivial e o comum. Na crônica, me realizo como alguém que escreve porque sinto mais prazer nas palavras que elaboro e encadeio.

Ainda não escrevi o que quero, mas tenho feito algumas tentativas capengas neste sentido. Quem sabe, um dia, só escreverei o que desejo escrever.

Minha vontade, porém, é de escrever menos. Ao escrever menos, acredito que me sentirei envolvido em menos lutas, que estarei menos cansado para não fazer nada, para cuidar de coisas que não tenham tanta relação com a palavra. Escrever menos passou a ser uma meta.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma data


Nossa vida é dividida em datas, do dia em que nascemos ao dia em que morremos.

Neste intervalo, milhares de datas se sucedem. Dia do início do namoro, dia do casamento, dia do nascimento do filho, o aniversário dos pais e dos irmãos, o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Dia da Criança, o Natal, o Ano Novo, Finados, Carnaval, feriado prolongado, dia de plantão.

Somos movidos a datas.


Uma agora me surge no horizonte: 21/12

Cabalística, não?


É o dia da minha qualificação de tese de doutorado. Dia de apanhar feito um cão sarnento da banca de avaliação, dia de enfrentar as feras que sabem milhares de vezes mais que eu, dia de defender meu trabalho como se fosse um filho (mesmo que ele esteja errado), dia de ser analisado dos pés à cabeça por quem assiste à sessão pública de tortura.


Preparar o espírito para O Dia. O primeiro grande dia desta jornada de quatro anos.

Tenho agora um prazo. Pouco menos de dois meses. A vida volta a girar em torno de uma data.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dá vontade de cantar

É sempre bom ouvir os clássicos de um gênio como Tião Carreiro. Isso porque a gente sempre se identifica com alguns dos versos, com algumas das situações.
Meu momento agora é de "Navalha na Carne".
Eu, num acesso incalculável de pretensão, acredito até que a canção foi inspirada em mim.

Com tanta coisa para fazer ao mesmo tempo, com visitas a cardiologistas e riscos cardíacos elevados, dá vontade de cantar:

É muita navalha na minha carne
É muita espada pra me furar
Muitas lambadas nas minhas costas
É muita gente pra me surrar
É muita pedra no meu caminho
É muito espinho pra eu pisar
É muita paixão e muito desprezo
Não há coração que possa aguentar

Quando obstáculos inacreditáveis surgem no caminho de um projeto acalentado, dá vontade de cantar:

É muito calo na minha mão
É muita enxada pra eu puxar
É muita fera me atacando
É muita cobra pra me picar
É muito bicho de paletó
Estão de tocaia pra me pegar
A maldade é grande, Deus é maior
Abre caminho pra eu passar

Quando testam os limites da minha paciência, quando dizem coisas que não mereço ouvir, quando enchem o meu saco, dá vontade de cantar:

É muita serra pra eu subir
É muita água pra me afogar
Muito martelo pra me bater
Muito serrote pra me serrar
É muita luta pra eu sozinho
É muita conta pra eu pagar
É muito zape em cima do ás
Mas a terra treme quando eu trucar

Quando as cobranças recaem sobre o aluno e o professor ao mesmo tempo, quando a solidariedade é substituída pela agressão, dá vontade de cantar:

É muita salmoura pra eu beber
É muita fogueira pra me queimar
É muita arma me apontando
É uma grande guerra pra me matar
É muita corda no meu pescoço
É muita gente pra me enforcar
Por aí tem gente que quer meu tombo
Mas Deus é grande, não vai deixar

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Como diz o samba...

O Rio de Janeiro continua lindo

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Adedonha

A - Allan Poe (a importância da escolha em O Poço e o Pêndulo)

B - Beckett (estamos sempre esperando alguém, mesmo que seja Godot)

C - Carlos Drummond de Andrade (e a morte anônima do leiteiro)

D - Dostoiévski (Os Demônios Karamazov)

E - Ernest Hemingway (nada mais especial que O Velho e o Mar)

F - Flaubert (Madame Bovary vai além dos limites da traição)

G - Guimarães Rosa (a poesia em estado puro de prosa)

H - Henry James (assustadoramente genial em A Outra Volta do Parafuso)

I - Isabel Allende (A Casa dos Espíritos não é assombrada)

J - José Cândido de Carvalho (risos imensuráveis com Lulu Bergantin)

K - Kundera (há como sustentar a leveza do ser?)

L - Liev Tolstói (Ana Kariênina, personagem-mundo)

M - Machado de Assis (bruxarias dispensam comentários)

N - Nabokov (Fogo Pálido, chamas sempre acesas)

O - Orwell (homem de bichos e revoluções)

P - Pedro Bandeira (a leitura sagrada da adolescência)

Q - Quintana (sapatos sempre floridos em versos)

R - Rubem Fonseca (A Grande Arte, perfurante e cortante)

S - Scott Fitzgerald (Grande Gatsby!!!!!!!)

T - Truman Capote (embaralhou os gêneros, A Sangue Frio)

U - Umberto Eco (O Nome da Rosa é barroco)

V - Vargas Llosa (no fim do mundo, a guerra)

W - William Faulkner (mestre, mestre, mestre)

X - Xiran (em homenagem às bravas mulheres da China)

Y - Yasunari Kawabata (neves escaldantes)

Z - Ziraldo (velhinho maluquinho)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Gangorra


"Vivemos conjugando o tempo passado ( saudade, para os românticos)
e o tempo futuro ( esperança para os idealistas).
Uma gangorra, como vês, cheia de altos e baixos - uma gangorra emocional.
Isto acaba fundindo a cuca de poetas e sábios e maluquecendo de vez o Homo sapiens.
Mais felizes os animais, que, na sua gramática imediata,
apenas lhes sobra um tempo: o presente do indicativo.
E que nem dá tempo para suspiros... "

Mario Quintana


Queria tanto não estar nesta gangorra...
Tem jeito de sair dela?