quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um Terço


Um terço do ano já passou...

Um terço de muito estudo, de muita correria, de muito stress, de muita preocupação

Um terço de muitos bons encontros, de projetos novos e audaciosos, de consolidação de velhas amizades e de superação de mal-entendidos com pessoas com quem se tem muito mais afinidades do que divergências.

Um terço de reflexões, de depressões, de decepções, de comemorações.

Um terço de desejos não realizados, de choro num apartamento solitário, de auto-estima lá em baixo.

Um terço de elogios e críticas, de conversas difíceis e mais leves, de decisões de mudar hábitos e de adiamentos destas decisões.

Um terço de realizações e raivas no trabalho, de compartilhamento e sacrifício em sala de aula, de boas e más entrevistas.

Um terço de carência afetiva, de resignação em estar só.

Um terço de queda de cabelos, de falta de ânimo para sair do sedentarismo, de nenhuma viagem para esquecer os problemas.

Um terço de independência dos pais (enfim), de preguiça de fazer compras no supermercado, de contas de água, luz e condomínio para pagar.

Um terço de bate-papos gostosos no apê vizinho da amiga/irmã da infância, de presentes afetuosos do amigo/irmão da infância que está no Rio, de conversas/cabeça com o amigo/irmão que está nos Estados Unidos.

Um terço que não foi intenso, que foi, em grande parte, melancólico, de cansaços e apreços.

Que venha mais um terço. E ver no que vai dar.

sábado, 25 de abril de 2009

A mulher da foicinha


A leitura recente do extraordinário livro Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo, veio acrescentar novas reflexões a algo sobre que, não sei exatamente por quais razões específicas, tenho pensado cada vez mais rotineiramente: a morte.

A morte não apenas como o fim da vida, mas a morte como um destino inevitável, como o começo, talvez, de uma outra etapa da existência, não sei em que forma, não sei em que plano.

Nos últimos dois anos, morreram pessoas de que gostava muito. Morreu meu avô materno no ano passado, vovô Nelo, um dos maiores contadores de histórias que já conheci. Já tinha 90 anos, sei disso, mas ainda sim é um mistério ver o meu avô num caixão, imóvel. Um homem que viveu tanto, que viveu tão intensamente, que tinha tantos defeitos e tantas qualidades, ali morto.

Quando meu primo-irmão Cláudio morreu em agosto de 2007, eu não pude ir ao seu velório. Estava em Fortaleza e não havia tempo hábil para chegar a Goiânia. Talvez tenha sido melhor não vê-lo no caixão como vi meu avô porque o que me unia ao Cláudio, meu compadre, era mais que um laço involuntário de parentesco ou a cerimônia de batismo de uma de suas filhas. Não me lembro, em toda a minha vida, uma vez sequer que eu tenha encontrado o Cláudio, que era só quatro anos mais velho do que eu e muito parecido comigo fisicamente, que ele não tenha me levantado do chão, que tenha deixado de me dar um abraço forte, forte. Mesmo comigo já gordo e ele, doente, já magro. Ainda hoje não me conformo com a morte do Cláudio. Para mim, estou dois anos sem vê-lo, nos desencontrando na casa dos 20 tios que temos em comum.

Em 2007 morreram a irmã e a mãe de um amigo meu que considero um irmão. Pessoas que sempre tinham um grande sorriso no rosto quando me encontravam, que sempre queriam saber se eu estava bem, que sempre davam um jeito de preparar algo gostoso quando nossa turma de amigos íamos à chácara da família delas. Ficaram fotos de momentos muito felizes de minha adolescência e juventude, em que elas aparecem em algumas.

E morreu minha madrinha Dora, a risada mais gostosa que já conheci e o abraço mais apertado em que já fui envolvido. E morreu meu tio Antônio, depois de uma triste e penosa história de abandono por parte dos filhos dele. Morreu dona Belinha, minha ex-sogra, um poço de generosidade e atenção.

Não estou aqui reclamando dos desígnios que tiraram tantas pessoas de minha convivência. Estou apenas especulando que essas circunstâncias podem ser uma explicação para o fato de eu estar pensando tanto na morte ultimamente. Acho que é um misto de medo, curiosidade, impotência. Tudo junto. Fico temeroso por meus pais, pelas minhas irmãs, meus sobrinhos, meus amigos. Fico temeroso um pouco por mim também, mas de uma forma menos acentuada.
Vivendo muito na estrada, como estou agora, já passei vários sustos. Caminhões que lhe fecham, aquaplanagens que quase te tiram da pista, freadas bruscas para evitar acidentes. Sempre me benzo antes de iniciar essas viagens que se tornaram rotineiras. Jeito de evitar a morte? Talvez. Mas devo confessar que a morte também tem seu lado fascinante, misterioso, instigante.

Fico imaginando como será do outro lado, como será quando o coração para de bater, quando suas lembranças acabaram, seus sentimentos se extinguiram, quando suas sensações desapareceram. Como será o fim?

Fico enumerando quem poderia chorar a minha morte. Seriam poucos ou muitos? Quantas das lamentações seriam sinceras? Quanto tempo levariam para me esquecer? Será que meus amigos que estão distantes viriam para a despedida final? Por quanto tempo ficariam tristes antes de voltar a sorrir? Quantos escreveriam que teriam saudades em seus blogs?

Sei que é estranho pensar nisso, mas eu penso. Sou melancólico e talvez um dos meus maiores defeitos seja exatamente pensar demais na morte e de menos na vida. Mas temperamentos não mudam facilmente. Fazer o quê? A morte ronda a todos nós, sempre, o tempo todo. Quando menos se espera, ela ceifa. Qual será o gosto de sua lâmina?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Vossas Excelências



Gilmar 0 x 1 Barbosa

Gilmar Mendes teve o que mereceu.

Viva Joaquim Barbosa!!!!!!!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sobre Passarinhos




Fotos: Nunes D'Acosta


Fiz uma matéria sobre passarinhos.
Para muitos, muitos colegas, e bota muitos colegas nisso, esta é uma matéria absurda, irrelevante, um jeito Poliana de ver a vida. Essa crítica poderia ter vindo de mim alguns dias atrás. Torci o nariz para a pauta, mas depois fui descobrindo que nos pássaros pode estar o que falta a uma boa parte do jornalismo atual: um tantinho de poesia.
Não se faz mais poesia nos jornais. Nosso gênero preferido é a tragédia, como se a vida fosse tão somente trágica e nunca, jamais, nem por meros instantes, poética.
O jornalismo deve tentar registrar o mundo em que está inserido e não inventei os passarinhos de Goiânia. Eles estão por aí, assim como os bandidos, os pedófilos, os políticos corruptos, as menores prostituídas e os desempregados. Todos eles constituem a pluralidade do mundo.
Os passarinhos me renderam elogios pelo lindo trabalho gráfico feito por André Rodrigues, que também gostou de lidar com os seres alados que quase nunca são notícia.

O mundo ficou melhor com a matéria sobre os pássaros? Não, assim como também não ficou melhor com a matéria sobre o sequestro, sobre o desvio de verbas públicas, sobre os estragos das chuvas. O jornalismo não deve se arvorar à misão de deixar "o mundo melhor". Isso é bobagem, retórica de quem acha que tem esse poder, mesmo não fazendo questão nenhuma de usá-lo, caso, de fato, ele funcionasse.

Mas o mundo também não ficou pior. Quem sabe alguém, lendo a matéria, em algum minuto de seu dia, resolva olhar para cima para tentar ver um pássaro. Se fizer isso, terá deixado de lado, por um instante, a preocupação com a crise, com a violência, com a desonestidade alheia. Já terá valido a pena escrever uma matéria tão desimportante.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A varanda lá de casa

Há muitas vantagens de se morar em casa e em apartamento.
Passei mais de 30 anos de minha vida morando em uma casa, indo ao quintal, sempre ao rés da rua. Agora moro no 12º andar, cerca de 35 metros acima do chão. É muito, muito alto.
Uma das vantagens de virar morador de apartamento é a varanda. Quando comprei meu apê, a primeira coisa que vi era se tinha uma boa varanda. Tinha que ter. Adoro minha varanda.
Nunca tive uma vista como aquela. Vejo longe, longe. À noite, o infinito parece ainda maior, com incontáveis luzes que parecem piscar o tempo todo, na cidade e no céu. Pelo menos em algumas delas sei que há vida, há gente, geralmente gente morando em casas, como eu morava.
Eles não me enxergam, me ignoram, mas eu todo dia dou uma olhada naquelas luzes. São luzes que fazem refletir sobre a relatividade da vida, sobre como as coisas podem ser vistas em diversos ângulos, em vários aspectos.
Não me sinto superior na varanda lá de casa. Ao contrário, sinto-me pequeno, mínimo. Não posso voar, não posso ver além das luzes, não posso quase nada, na verdade. Posso apenas ficar na varanda, pensando em tudo o que eu não posso fazer.
Minha varanda é meu espaço predileto, onde está a minha brisa, onde fica o meu esquecimento de coisas incômodas, onde faço minhas reflexões.
Lá, faço o que melhor gostaria de fazer: observar. Estou tentando ficar mais quieto, só vendo, falando menos. A varanda é meu treino. Uma varanda nua, sem rede, sem plantas, sem cadeiras de jardim. Só a varanda e eu, em pé, encostado em sua grade, a escrutinar vizinhos próximos e luzes distantes. A escrutinar pensamentos próximos e sonhos distantes.
A varanda lá de casa (melhor dizendo, apartamento) é minha conselheira.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Vontade de dormir


O cansaço faz parte da rotina de quase todos hoje em dia.

Na minha rotina, ele parece nunca ter deixado de existir.

Devo confessar aqui, a quem de vez em quando dá uma olhada neste desatualizado blog, que estou cansado.

Quero dormir.

Dormir para não acordar tão cedo.

Dormir para esquecer os problemas e as obrigações.

Dormir para que meus desafios e os de quem a gente gosta simplesmente desapareçam.

Dormir para deixar as preocupações no nível do sonho.

Dormir para não me importar com horários e afazeres.

Dormir para não me lembrar de meus defeitos e covardias.

Dormir para fechar os olhos e relaxar.

Dormir para "alimentar de horizontes o tempo acordado de viver"

Cansei. Quero dormir!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Escada Rolante



Um pedaço de metal dentado. Um pedaço de metal dentado subindo ou descendo atrás de outro pedaço de metal dentado. Eles nascem do nada e somem no nada. Um após o outro. Um após o outro. Um após o outro passa um homem atrás de outro homem. E uma velha, e um menino, e uma mulher insegura que quase cai de cima do pedaço de metal dentado. Eles surgem do nada e somem no nada. Um após o outro. Um após o outro. E quem repara no metal dentado? E quem percebe a velha que subiu no metal dentado com suas juntas doloridas, seus cabelos brancos de tristezas e frustrações? E quem repara no homem imponente e bem vestido que está sobre o metal dentado, subindo, meio suspenso no vão, pensando voar nesse espaço que divide com uma velha de juntas doloridas que desce em direção contrária, com suas tristezas e frustrações que tinta de cabelo não pode disfarçar?


Vem o menino arteiro, que se soltou da mão da mãe relapsamente escandalosa, que grita – Thiaaaaaaaaaaaaaaago! – e chama a atenção do homem que parecia voar sobre um mísero pedaço de metal dentado que se repete. Um metal que tem fome do dedinho impertinente do Thiago, o menino que um dia vai subir sobre um pedaço de metal dentado e imaginará estar voando. Mas a mãe relapsamente escandolosa, que um dia será uma velha de juntas doloridas e cabelos de uma brancura triste, acode antes que o metal dentado faça uma vítima e desconte em Thiago sua ira de ser pisado por tantos homens voadores, mães relapsas e velhas tristes e doloridas todos os dias.


Nenhum deles olha para o metal dentado, a não ser quando sobem e quando descem, menos Thiago, que acabou caindo na descida – não tem jeito, ele teria mesmo que se machucar com uma mãe tão relapsa assim. Mas quem é Thiago, coitado?! Ainda uma criança. Suas juntas ainda não doem, seus cabelos ainda estão escuros, suas grandes frustrações e tristezas resumem-se a não poder brincar mais com os sucessivos pedaços de metal dentado que transportam pessoas doloridas, relapsas e que pensam voar. Ele é o único que não voa, que não dói, que não negligencia entre um pedaço de metal dentado e outro. É o único ali que percebeu o metal dentado, mas que não reparou na irresponsabilidade da mãe, nas dores da velha, na arrogância do homem voador. Mas o metal dentado percebeu e percebe cada um que nele pisa, que sobe e que desce, num movimento constante de velhas, homens, mães e meninos.


A velha, o homem, a mãe e o menino sumiram e agora vem a jovem vendedora da loja de artigos esportivos que vê, ainda do alto, já pisando no pedaço de metal dentado que surgiu à sua frente, um rapaz bonito e forte, de óculos escuros, que sobe em direção contrária. Ele aprecia seu próprio corpo atlético, arruma a manga da camisa apertada que vestiu e que salienta um bíceps artificialmente inflado. A moça desce e seu olhar cruza com o do rapaz fortão, mas o olhar dele está direcionado à coroa enxuta que vem atrás da vendedora, em um vestido estampado meio esvoaçante. Repara bem na roupa, nas pernas torneadas, mas logo se vira para o outro lado do vão. São vidas em três pedaços de metal dentado que compartilham o ordinário hábito de esperar subir e descer, movendo-se imóveis.


Daqui a pouco, a vendedora vai se encontrar com a irmã relapsa e seu sobrinho Thiago, o menino mais encapetado que conhece. A mulher de vestido marcou encontro com sua mãe de juntas doloridas e cabelos brancos de tristezas e frustrações. O rapaz forte também tem um encontro, só que com seu namorado, um homem que parecia voar instantes atrás. Quanto ao pedaço de metal dentado ele vai continuar a transportar inocências, segredos e incongruências. Para cima e para baixo. Um após o outro. Um após o outro.