quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Um gênio


Depois de mais de um mês de ausência, volto a postar algo aqui no blog. Gostaria de ser mais assíduo, mas anda um pouco difícil. De qualquer forma, aos amigos, mais um pouco do que penso e do que gosto.


O Grande Chaplin


"Longa é a tarde, longa é a vida. De tristes flores, longa ferida. Longa é a dor do pecador, querida." Estes versos são da música Querida, de Tom Jobim. Foi com ela que tive contato pela primeira vez com uma cena que nunca mais esqueceria. Era um homem pequeno, de bigodinho ridículo no rosto, brincando com um enorme globo terrestre. Era Charles Chaplin em uma tomada clássica do filme O Grande Ditador. Tinha 14 anos. Vi aquela cena, com aquela trilha sonora, porque as duas estavam juntas na abertura de uma novela, O Dono do Mundo, da Rede Globo.

Jeito mais "indústria cultural" de tomar conhecimento de um gênio, não? Mas, neste caso, o meio pouco importa. O que valeu mesmo, pelo menos para mim, foi ver Chaplin em uma das mais belas críticas ao ditatorialismo já imaginadas.

Das trivialidades podem vir as maiores revelações. É o inesperado que muda referências, que ensina. Aquele inesperado me ensinou a admirar o homem que talvez tenha sido o maior entre os maiores do cinema. E dali conheci O Grande Ditador, obra-prima com cenas como a que Chaplin, num arremedo maravilhoso de Hitler, disputa em altivez em uma cadeira de barbeiro com o não menos satírico Mussolini. Há também aquela do discurso final, pacifista, que Chaplin teria incluído de última hora, deixando o tom predominantemente cômico da fita e passando a falar muito sério, já com as primeiras informações confiáveis das atrocidades nazistas em seus ouvidos.

A seqüência que mais marca, porém, é mesmo a de Chaplin bailando com a humanidade. Algo tão simples, até um pouquinho patético, e com uma simbologia tão assustadora. É a abdicação da obviedade, é o passo de dança que define os destinos do mundo. Quanta representatividade em uma cena que parece tão simples, picaresca até. É o cinema em estado puro, uma das formas mais eficientes de se passar uma mensagem, defender uma idéia, representar a vida no universo da fantasia.

E Chaplin fez isso tantas e tantas vezes... Nas engrenagens amalucadas, engolidoras de gente de Tempos Modernos; no bater de dentes de A Corrida do Ouro; nas ternas trapaças de O Garoto. São filmes que não posso adjetivar adequadamente. Seria injusto com produções tão ricas em sentido, tão cheias de possibilidades. Prefiro ficar com minha admiração, altamente impressionista, por O Grande Ditador. Vou me ater a um Hitler genérico correndo pelos telhados e um Hitler de pastiche com os trejeitos de um Napoleão do século 20. Um trabalho original até para os modelos de hoje, quando continuam sendo poucos aqueles que conseguem encontrar de fato uma linguagem própria, que conquistam a vitória de encantar com o gesto mais trivial, o ato mais simples e humano.

Chaplin já se foi há 30 anos. Podemos voltar a Tom Jobim: "O dia passa e eu nessa lida. Longa é a arte, tão breve a vida."

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Joseph Barbera





Esse texto eu publiquei na ocasião da morte de Joseph Barbera, um dos magos dos desenhos animados. É um texto simples, mas que me trouxe tantas e doces recordações que resolvi dividi-lo com vocês.




Dívida Impagável

Não. Não é possível saldar uma dívida de tantos anos. Não é fácil pensar em algo que possa se equiparar a tanta alegria, a tanta magia, a tantos vôos da imaginação. Não, senhor Joseph Barbera. Serei para sempre seu devedor. Seu e de seu parceiro William Hanna. Mas tenho certeza de que esta é uma dívida que jamais será cobrada, nem de mim e nem de milhões de outras pessoas que assim como eu se divertiram, riram, se afligiram e sonharam com mundos outros que não este ao assistirem às suas dezenas de criações na telinha.
Com muita ludicidade, o senhor nos deu momentos de intensa e genuína felicidade na infância, na adolescência e, por quê não confessar, também na idade adulta. Sua vida terrena que se encerrou na última segunda-feira, em Los Angeles, aos 95 anos, senhor Barbera, foi tão proveitosa para tantas gerações que a morte se apequenou diante do legado deixado. Seus desenhos animados podem estar de luto, mas a tristeza nunca combinou com eles. Não seria agora que ela se imporia. Quantas criaturas maravilhosas o senhor nos apresentou, senhor Barbera. A quantas viagens extraordinárias o senhor nos levou por meio de seu traço? Com o cartão de visitas que o senhor deu a todos os seus fãs, conheci um mundo distante habitado pelos Herculóides, em que rinocerontes atiravam pedras biônicas e um gorila de pedra defendia crianças.

Viajei pelo espaço a bordo da nave de Space Ghost. Fui ao passado presenciar a rabugice de Fred Flintstone e a fidelidade de Barney. E que surpresa tive quando descobri que naquela época os freios dos carros eram as solas dos pés dos motoristas, que Fred trabalhava no lombo de um brontossauro e que o cachorro de estimação daquela família se chamava Dino. Não sei dizer quantas vezes desejei ter um igual no quintal de casa... E a força hercúlea de Bambam e a doçura e inteligência de Pedrita? Na relação de amizade entre os vizinhos, uma mensagem implícita para todas as idades.

E o que dizer do futuro então? Os Jetsons e sua empregada robô, seu cachorro com antenas, o caçula Elroy e suas invencionices. É difícil dizer para quem eu torcia nas eternas perseguições de Tom e Jerry. Não sabia direito quem era o herói ou o vilão. Havia dias em que eu era partidário do rato. Em outros, do gato. Mas do cachorro Scooby-doo e de seus amigos Salsicha, Fred, Daphne e Velma... destes eu seria um fiel escudeiro... se pudesse, claro. Um dos meus sonhos de meninice era participar de uma caça ao fantasma como aquelas a que eu assistia. Como adoraria ter um cachorro falante e covarde como Scooby.

A mesma simpatia tinha pelo gato Manda-Chuva e seu molejo malandro, com aquele ar de quem tem sempre a situação sob controle. Morria de rir das estripulias que ele armava para o guarda Belo naquele beco que poderia ser em qualquer lugar. Guarda? Alguém falou em guarda? Ou seria "seu gualda"? Sim, é ele mesmo. Zé Colméia, o urso mais viciado em guloisemas da história do Parque Jellystone. Com o companheiro Catatau, este camarada gente boa aprontava todas e algumas mais. Ele tinha um jeitão todo sestroso que marcou outras criações suas, senhor Barbera, como o rosado Leão da Montanha – sempre saindo pela direita –, o crocodilo Wally Gator – sempre dando um jeitinho de fugir do zoológico –, e o leão Lippy – acompanhado da hiena pessimista Hardy – "ô dia, ô vida, ô azar".

Tinha ainda a famosa Clementina da música cantada por Dom Pixote, o tartaruga espadachim Touchê, a viola maluca de El Cabong, o disfarce desastrado do cavalo Pepe Legal. Uma das coisas que nos ensinou, senhor Barbera, de forma muito delicada e bonita, foi o respeito ao diferente, à personalidade de cada ser vivo que nos cerca. Do baixinho Babalu ao grandalhão Tutubarão, da biônica Formiga Atômica ao neurastênico coelho Ricochete.

Mesmo seus personagens cheios de falcatruas, senhor Barbera, exerciam um fascínio especial. O que dizer, por exemplo, de Dick Vigarista e o cão Mutley/Rabugento – "medalha, medalha, medalha" –, em suas presepadas para ganhar a Corrida Maluca ou para capturar o pombo com a desmiolada Esquadrilha Abutre. Ou o Gargamel, o implacável perseguidor dos Smurfs. Mas estes eram totalmente compensados com heróis como Jonny Quest e Hadji, os garotos detetives, sempre escoltados pelo cão Bandit. Ou pela bonita relação entre Bobby Pai e Bobby Filho – "Oh, meu querido e magnânimo pai."

Seria impossível aqui, senhor Barbera, relembrar tudo que gostaria. Os gritos malucos do Capitão Caverna, a Sala de Justiça dos Super-Amigos, as deduções excêntricas de Olho Vio e Faro Fino e os resmungos de Zé Buscapé. Como vê, senhor Barbera, minha dívida é mesmo impagável. E é melhor que seja assim. Esta é o melhor débito que já contraí e dele não quero me livrar nunca.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Sinuca de bico



Adoro jogar sinuca e bilhar (sabia que há diferenças entre os dois?) Por isso, fiz essa crônica descrevendo uma partida de bilhar. Espero que gostem.

A arte da guerra... No bilhar

Os oponentes se encaram. Olhos nos olhos e o único pensamento possível: vencer.
"Vamos jogar uma partidinha?"

É hora de escolher as armas do duelo. O taco mais reto, com a cabeça em melhores condições, no peso certo. De preferência, aquele de estimação, que tem uma marquinha na madeira para diferenciá-lo dos demais.

As bolas são postas no pano verde. O barulho do marfim se tocando é a senha para os curiosos se aproximarem.

É hora de espalhar as bolas e tentar matar alguma na primeira tacada, forte e cheia de efeito. Ás colado na tabela, o jogo começa. São 14 bolas para morrer.

Com técnica, o jogador que saiu mata a 2 azul no canto. E já está de olho na 14 verde que ficou reta em outra caçapa. É hora de estudar o jogo. Matar descolando a 10 que está na tabela para pegá-la no meio. Mais uma bola morre, e outra. Com efeito, sobe o bolão e pega a 4 roxa lá em cima, ajeita a 6 verde no meio e rola a 8 preta para a boca. Ótimo início. Só tem uma mal posicionada, a 12 roxa, entre duas bolas rosas, a 5 e a 13, do adversário. É hora de seu oponente mostrar a que veio.

Ele começa com uma bola difícil, longa, mas a 3 vermelha entra na caçapa de metal fazendo barulho. Com técnica, ele deu uma "paradinha" no bolão, deixando a 7 marrron reta no meio. Matando-a com meia-força, descola a 11 vermelha, ajeitando-a no outro canto. A mata com força pegando "na bunda" a 9 amarela. Outra bola morta. É hora de rolar a 15 marrom para a boca e deixar o adversário abrir o jogo.

É a arte da guerra. Todas as jogadas são minuciosamente estudadas. Os dois precisam se defender. Em torno da mesa, eles se movem como dançarinos, numa coreografia não-ensaiada. A forma como seguram o taco mostra o nervosismo. Mãos suadas exigem o uso do giz branco.
Quem mata as pares deixa seu 8 na boca e bate, de leve, no 12, tentando abrir só sua bola. Cola o 5, mas deixa o 13 para o adversário. Ele agradece, mata a bola e rola o 5 para a boca. Já são três caçapas ocupadas. Em jogada espetacular, quem mata as pares corta a 12 por fora, matando-a no meio. Mas o bolão acaba morrendo também. É suicídio e o jogo é castigado. Sai a menor bola do oponente, a 5 que está na boca. Agora, resta o 15, que ele mata com efeito, esbarrando no ás. Mas ele fica no rumo da caçapa onde está o 8. É hora do prego.

Devagarzinho ele estaciona o bolão atrás do ás. Ao adversário resta matar o 8 sem triscar na bola amarela. Se cegar, perde o jogo. Depois de muitos cálculos, a única saída é fazer o bolão correr toda a mesa, bater em três tabelas e matar a bola. Jogada complicada, quase impossível. Mas com perícia, ele a executa com perfeição. Agora, quem matar o ás, ganha. O combate terá um vencedor.

Meia hora depois, os dois já estão tomando uma cervejinha juntos e falando de futebol. Quem ganhou aquela guerra? Que guerra que nada. Era só uma partida de bilhar.

domingo, 29 de junho de 2008

Um jornalismo de ainda...

Por quê o jornalismo?
Essa pergunta, acredito, persegue a todos que, de fato, se importam com a profissão.
Ela vem me acompanhando e me encontrando em muitos papéis. Estudante, profissional de redação, professor. Os argumentos vieram mudando no decorrer do tempo, na medida em que a experiência de profissão ensinava algo.

Sim, os anos de profissão trouxeram uma certa descrença em determinadas situações, alguma insatisfação pessoal e um calejamento do lombo, tão alvejado por pressões de toda ordem.
Mas sabem de uma coisa? Se o jornalismo não for assim, não tem muita graça. Um certo tesão sadomasoquista? Pode ser. A grande magia do jornalismo, porém, é estar perto do diferente, do que não faz parte de seu cotidiano. É compreender as pessoas que vai encontrando pelo caminho.

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodovar, cores de Frida Kahlo, cores

O bom é não saber o nome de todas as cores, é descobrir tantas tonalidades, é ainda ter a capacidade de se surpreender, de se indignar, de se emocionar com as pessoas, com as situações, com os lugares que o jornalismo proporciona encontrar.

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus

É bom passear pelo escuro, não ter idéia do que vai encontrar ou ouvir ao sair para uma pauta, ao conversar com uma pessoa. É bom sentir-se o elo que liga uma realidade escondida ao restante das pessoas que ainda a desconhecem. É bom chegar antes e anunciar algo que ninguém ainda sabia. É bom sinalizar para problemas que estão sendo ignorados, é bom filtrar informações inverídicas.

Transito entre dois lados
De um lado, eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro

O jornalismo é transitar entre todos os lados, é evidenciar os opostos, é expor, mostrar. Jornalismo para mim ainda tem algo de mágico, algo de intangível e de inclassificável. Ainda não perdi todas as minhas ilusões. Ainda gosto de me desafiar a escrever um texto gostoso, a tentar tirar de um entrevistado algo que ele nunca disse a ninguém, a defender os direitos de quem não os exerce, a comentar uma obra interessante, conversar com pessoas que tenham algo a dizer. Minha visão de jornalismo ainda é caloura, ainda é crente, ainda é boba. Não conseguiria fazer algo que não tenha o mínimo de ludicidade, de criação. Mesmo que tenha "remoto controle" sobre muita coisa nesse processo, ainda quero fazer parte dele, espernear, argumentar, entristecer-me e realizar-me no ofício que escolhi. Ainda...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Espetáculo estranho


É possível viver algo e sentir exatamente o contrário daquilo que se deveria estar sentindo em determinada situação?

Acho que sim...


As conquistas não são poucas. Mais até para um ano que, de alguma forma, por certos sinais imperceptíveis à platéia, pressagiava mudanças.

Elas estão vindo, não decepcionaram.


E virão ainda mais. Talvez mais até do que o diretor desse espetáculo chamado vida particular poderia imaginar.

O roteiro está bom, o público aplaude, mas...

Mas...


Esse mas que não some. Irritantemente persistente.

Ingratidão com o que a vida oferece, com as oportunidades que vão surgindo... E o diretor não sabe lidar bem com os elogios da crítica, não se convence de que sua produção está dando certo.

Permanece triste na coxia, como se tudo estivesse errado.


Imprevistos existem, mas não deveriam ser tão superdimensionados.

Alguns atores com que contamos podem não agir como o diretor prevê. Se omitem, se escondem, não querem subir ao palco, têm encenações mais importantes em que pensar.

Outros, que estão sempre por aí, como fantasmas da ópera, costumam aparecer de vez em quando. Mas tudo isso deveria fazer parte do show, só isso.


Entre comédias e tragédias, entre cenas cômicas e dramáticas, para o diretor deveria ser mais importante que a peça continuasse em cartaz, de alguma forma agradando a si e a quem de fato importa. Mas... Ele continua lá, cabisbaixo, vendo o copo sempre meio vazio.


Estranho, muito estranho esse espetáculo de viver.

domingo, 1 de junho de 2008

Crônica da Dona Iraci

Esta crônica foi publicada e gerou reações iradas. Uma leitora escreveu uma carta dizendo que eu era sádico e colocando em dúvida a existência de minha mãe, já que apenas um desalmado poderia ter escrito o que escrevi.
Eis a crônica da discórdia.



Dona Iraci vai cair


Uma vez a cada quinze dias, dona Iraci vai no Centro fazer compras. Compra tudo o que vê, a infeliz. Volta para casa com um monte de sacolas de plástico nas mãos. Tem um mau-gosto desgraçado. Sempre sobe no ônibus por volta das 4 da tarde, quando o coletivo ainda não está muito cheio. E dona Iraci gosta de viajar sentada. Também, com aquelas pernas varizentas. Ela se esparrama no banco, aquela gorda, e fica soterrada com aquele monte de sacolas.
Mas naquele dia, dona Iraci bobeou. Bem feito. A folgada passou pela catraca e quis se sentar lá na última fileira, na traseira do ônibus. Que erro terrível, dona Iraci! Lá foi ela, atulhada de sacolas, mastodôntica, em busca do banco vazio quando, de repente, o ônibus freou bruscamente. E veio voltando dona Iraci, de ré, catando cavacos de costas. Todo o caminho percorrido desde a catraca ela ia refazendo, só que agora sem rumo, sem nada para se apoiar. É, dona Iraci vai cair. Hoje, essa miserável cai.
"Estava tão próxima", pensava dona Iraci, "tão perto daquele banco. Maldita freada. Onde é que eu vou parar, meu Deus", se perguntava ela. "E se eu me machucar no tombo, Virgem Maria. Como é que vou fazer a janta hoje, como é que vou pegar o Diogo na creche. Também, a Amália encosta, viu. Arruma filho sem pai e estrepa a mãe. Por quê ela mesma não pega o filho. Tudo nas costas da avó besta aqui".
Dona Iraci reclamava em pensamento, mas isso não a ajudava. Amaldiçoar os paspalhos dos passageiros que não faziam nada para ampará-la não evitava o destino final. E bem que ela merece um destino trágico. "A catraca. Jesus amado, vou rachar o coco na catraca. Ou então vou quebrar os dentes em alguma quina de banco. Não tenho dinheiro para ficar colocando dente novo não." Dona Iraci, dona Iraci... A senhora não toma jeito mesmo. Prestes a se estabacar e pensando em miudezas. Mas seu pensamento é miúdo, né, dona Iraci? Miudezas vão se espalhar todas pelo piso do ônibus. Os colares de contas vão se esfacelar, aquele jogo de copos americano vai virar caquinhos, o lençol barato vai rasgar.
É, dona Iraci, não tem jeito, a senhora vai cair. Vai se esborrachar no chão como um saco de batatas, vai se estatelar no piso do ônibus, vai virar os cambitos pra cima, vai dar vexame na frente de desconhecidos, mostrar a anágua, a calçola, tudo, dona Iraci.
Mas dona Iraci merece esse tombo. É reclamona, maledicente, fofoqueira. Espalha mentiras sobre os vizinhos. Tem vergonha da filha que é mãe solteira, vive jogando isso na cara da coitada. Agora a freada do motorista fará justiça. Dona Iraci, com todas as suas tranqueiras, vai pro chão, vai ruir, vai desabar como um prédio velho. Vai dona Iraci, cai logo, desgramada. Tomara que trinque a bacia, que pise colocar pinos no braço. Senão, do que terá valido subornar o motorista do coletivo, pagando para ele dar essa freada quando a filha da mãe dessa xexelenta passasse pela catraca. Ah, Dona Iraci. A senhora me paga, diaba velha. Todas as mentiras que espalhou de mim na vizinhança, todas as insinuações maldosas, todos os prejuízos que sofri. Pagará com juros. Hoje Dona Iraci vai cair.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Uma pequena crônica sobre o tempo

A ficha caiu


Ouvindo Chico Buarque, me deparei com o inexorável:
"Eu acho que vou desligar
As fichas já vão terminar"
Dois versinhos bobos, nem tão bonitos assim da música Bye, Bye, Brasil me fizeram pensar mais do que um tratado de filosofia inteiro.
As fichas já vão terminar? Fichas? Que fichas?
Para qualquer adolescente de hoje falar em fichas – nestas fichas – é uma aberração. Como assim? Se ligava de telefone público com fichas?
Pois é. Era assim mesmo que nós, os mais... digamos... experientes, usávamos o velho e bom orelhão.
Cartão? Que mané cartão. Isso não existia tempos atrás. Era com a famosa fichinha de metal, do tamanho de uma moeda, que as ligações eram feitas em aparelhos públicos, num tempo em que ter uma linha de telefone em casa significava um investimento financeiro.
Aquela fichinha que sumia dentro das bolsas das mulheres, que os homens deixavam cair do bolso das calças e que pareciam nunca ser suficientes para fazer as ligações que precisávamos fazer. Elas eram colocadas na parte de cima dos aparelhos e quando a ligação se completava – algo que poderia muito bem não acontecer –, um barulhinho dela caindo dentro do depósito de fichas do telefone sinalizava que a pessoa iria sim conseguir falar com o parente distante. A ficha havia caído.
Me lembro que estas fichas eram, ao mesmo tempo, úteis e desprezadas. Era fácil encontrá-las jogadas nas ruas, em ralos de pias, perdidas no fundo de alguma gaveta pouco aberta.
Fico me perguntando onde foram parar tantas fichas? Que destino este fóssil tecnológico teve? Onde está este instrumento pré-analógico na era digital? Será que existe alguém que coleciona fichas telefônicas ou elas estão fadadas ao esquecimento total, restritas a menções enigmáticas em uma canção dos anos 70? Possivelmente sim. Mas a ficha telefônica serve a outro objetivo. Ela é uma prova de que o tempo passa, de que o tempo voa... Serve para a gente perceber que... Bem, é melhor deixar pra lá. Não vamos encompridar a conversa não. A ficha já caiu, tá bom!