terça-feira, 30 de junho de 2009

65 Vezes


Foram 65 vezes.

No último um ano e meio, fui e voltei de Brasília 65 vezes para assistir aulas na UnB.

No primeiro semestre, ia e voltava duas vezes por semana: ia na terça à noite, voltava na quarta depois do almoço; ia na quinta à noite, voltava na sexta, depois do almoço.

No segundo semestre, ia no domingo à noite, voltava na terça depois do almoço.

No terceiro semestre, ia no domingo à noite, voltava na segunda, depois das 10 da noite.

Indo e vindo, indo e vindo.

Ontem, 29 de junho, assisti minhas últimas aulas do doutorado.

Acabou o vai-e-vem semanal. Nem acredito.

No início do ano passado, muitos, muitos, bem ou mal intencionados, preocupados ou não comigo, amigos, colegas de trabalho, meros conhecidos fizeram um coro numeroso: "você não vai dar conta."

Quando eu chegava à redação, muitos diziam: "como você está cansado, não vai aguentar."

Mas fui levando, fazendo ouvidos moucos. Não que me sentisse inatingível, mas aqueles comentários passaram a ser não um problemas, mas um estímulo a mais.

Conseguiria sim, nem que fosse para calar a boca de todos.

Quando muitos perceberam que sim, eu estava sobrevivendo, deixaram de agourar, talvez por medo de queimar a língua. Talvez.

Mas eles, no fim das contas, são os que menos importam neste momento.

Importam, na verdade, aqueles que nunca deixaram de me apoiar.

Vai aqui um agradecimento especial a duas amigas especiais: Karla e Veruska. Elas abriram seus apartamentos, abriram mão da privacidade de pessoas que moram sozinhas, para me receber toda semana, sempre com um lanche, um bom papo, palavras de encorajamento. Às duas, nunca terei como agradecer.

E nunca terei, também, como agradecer às rezas de meus pais todos os dias em que eu pegava a estrada: proteção contra acidentes, contra motores pifados, contra radiadores furados, contra pneus estourados, contra todo e qualquer empecilho no caminho.

As rezas funcionaram perfeitamente. Nada, em nenhuma vez, ocorreu. Na única vez em que o carro pifou, ele pifou depois que cheguei em Goiânia, na frente da casa de outra amiga querida, Amanda, no dia uma caroneira. E caronas foram mais que caronas nesta jornada: foram companhias preciosas em mais de duas horas de solitária viagem, sempre com as mesmas paisagens, os mesmos marcos, os mesmos buracos da estrada.

Sustos foram muitos. Em Abadiânia, à noite, precisei, num dia, desviar de uma mulher que atravessou a rodovia em sua bicicleta; num outro, de um cavalo que cruzou a BR na maior tranquilidade do mundo. Em uma vez, atropelei um cone de uma obra mal sinalizada perto de Alexânia. Outra vez, levei uma fechada fenomenal no trevo do Daia, em Anápolis, de uma carreta de incontáveis toneladas.

Confesso aqui que cochilei ao volante em uma de minhas vindas, já chegando a Goiânia, numa pescada que me valeu o maior dos sustos e uma guinada violenta no volante. Mas somos preparados para os sustos quando eles são apenas isso: sustos.

Nessas minhas idas e vindas, vi um motoqueiro morto, atropelado em Teresópolis, e um outro, dentro de Brasília, com o corpo já coberto por jornais. Vi carretas com as rodas para cima, carros capotados depois de surpreendidos por aquaplanagem.

Foram 65 idas e 65 vindas. Foram, ao todo, 28.600 Km percorridos. Seria como percorrer seis vezes a distância entre Porto Alegre e Manaus, ou percorrer três vezes a distância entre São Paulo e Johanesburgo, na África do Sul, ou duas vezes a distância entre a capital paulista e Nova Dheli, na Índia. Nunca pensei que dirigia isso tudo na vida.

Mas dirigi. Estou fazendo este post não para me gabar, mas para desabafar, para comemorar com os que nunca duvidaram desta empreitada, e para jogar na cara de quem duvidava que não devemos duvidar das pessoas, ainda mais das que não conhecemos bem.

Muitos que me apoiaram leem este blog e a eles eu agradeço.

Alguns que duvidaram também leem este blog e a eles eu também agradeço, mas de forma bem diferente, bem menos fraterna. Com os primeiros quero compartilhar aqui minha alegria. Com os outros, não quero compartilhar nada, apenas informá-los de que estavam errados.


sábado, 6 de junho de 2009

Voltar das férias é...

Voltar das férias é retomar velhas rotinas que você jurou que tentaria abandonar
Voltar das férias é ter menos tempo para você mesmo
Voltar das férias é tentar se encher da esperança de que é o melhor a fazer
Voltar das férias é deixar de dormir um pouquinho à tarde
Voltar das férias é reencontrar objetos que você se esqueceu que tinha
Voltar das férias é rever amigos queridos
Voltar das férias é rever pessoas desagradáveis
Voltar das férias é ter menos dinheiro na conta
Voltar das férias é pensar nas próximas férias
Voltar das férias é atestar que o tempo passa depressa demais
Voltar das férias é ter um pouco de depressão por voltar das férias
Voltar das férias é encarar velhos problemas que você nunca consegue resolver
Voltar das férias é olhar colegas de trabalho com um olhar já conhecido
Voltar das férias é não ser olhado por colegas, alguns queridos e outros nem tanto
Voltar das férias é algo bom e ruim ao mesmo tempo (20% bom e 80% ruim)
Voltar das férias é cumprir um ciclo e iniciar outro

Voltemos, então, se não tem outro jeito.
E aguardar as próximas férias... E que estas sejam melhores

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Tirar férias é...

Tirar férias é demorar uma semana para desacelerar o ritmo.
Tirar férias é ter tempo para fazer um tratamento dentário decente.
Tirar férias é assistir o Video Show.
Tirar férias é dormir à tarde, mais ou menos das 3 às 5.
Tirar férias é ir ao cinema no horário do expediente.
Tirar férias é escrever o capítulo teórico-metodológico da tese.
Tirar férias é ler algo a mais do que manda o professor.
Tirar férias é ver as notícias e achá-las tão distantes.
Tirar férias é atender, no máximo, duas ou três ligações por dia.
Tirar férias é planejar viagens que não dão certo.
Tirar férias é ir em viagens não planejadas.
Tirar férias é pensar no que você está fazendo da vida.
Tirar férias é convidar seus pais para almoçar em sua casa em dia de semana.
Tirar férias é dar um pouco de atenção para os amigos distantes que estão por aqui.
Tirar férias é começar fazer academia.
Tirar férias é sentir saudades do trabalho (acreditam?).
Tirar férias é prometer a si mesmo que nunca deixará de tirar férias.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um Terço


Um terço do ano já passou...

Um terço de muito estudo, de muita correria, de muito stress, de muita preocupação

Um terço de muitos bons encontros, de projetos novos e audaciosos, de consolidação de velhas amizades e de superação de mal-entendidos com pessoas com quem se tem muito mais afinidades do que divergências.

Um terço de reflexões, de depressões, de decepções, de comemorações.

Um terço de desejos não realizados, de choro num apartamento solitário, de auto-estima lá em baixo.

Um terço de elogios e críticas, de conversas difíceis e mais leves, de decisões de mudar hábitos e de adiamentos destas decisões.

Um terço de realizações e raivas no trabalho, de compartilhamento e sacrifício em sala de aula, de boas e más entrevistas.

Um terço de carência afetiva, de resignação em estar só.

Um terço de queda de cabelos, de falta de ânimo para sair do sedentarismo, de nenhuma viagem para esquecer os problemas.

Um terço de independência dos pais (enfim), de preguiça de fazer compras no supermercado, de contas de água, luz e condomínio para pagar.

Um terço de bate-papos gostosos no apê vizinho da amiga/irmã da infância, de presentes afetuosos do amigo/irmão da infância que está no Rio, de conversas/cabeça com o amigo/irmão que está nos Estados Unidos.

Um terço que não foi intenso, que foi, em grande parte, melancólico, de cansaços e apreços.

Que venha mais um terço. E ver no que vai dar.

sábado, 25 de abril de 2009

A mulher da foicinha


A leitura recente do extraordinário livro Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo, veio acrescentar novas reflexões a algo sobre que, não sei exatamente por quais razões específicas, tenho pensado cada vez mais rotineiramente: a morte.

A morte não apenas como o fim da vida, mas a morte como um destino inevitável, como o começo, talvez, de uma outra etapa da existência, não sei em que forma, não sei em que plano.

Nos últimos dois anos, morreram pessoas de que gostava muito. Morreu meu avô materno no ano passado, vovô Nelo, um dos maiores contadores de histórias que já conheci. Já tinha 90 anos, sei disso, mas ainda sim é um mistério ver o meu avô num caixão, imóvel. Um homem que viveu tanto, que viveu tão intensamente, que tinha tantos defeitos e tantas qualidades, ali morto.

Quando meu primo-irmão Cláudio morreu em agosto de 2007, eu não pude ir ao seu velório. Estava em Fortaleza e não havia tempo hábil para chegar a Goiânia. Talvez tenha sido melhor não vê-lo no caixão como vi meu avô porque o que me unia ao Cláudio, meu compadre, era mais que um laço involuntário de parentesco ou a cerimônia de batismo de uma de suas filhas. Não me lembro, em toda a minha vida, uma vez sequer que eu tenha encontrado o Cláudio, que era só quatro anos mais velho do que eu e muito parecido comigo fisicamente, que ele não tenha me levantado do chão, que tenha deixado de me dar um abraço forte, forte. Mesmo comigo já gordo e ele, doente, já magro. Ainda hoje não me conformo com a morte do Cláudio. Para mim, estou dois anos sem vê-lo, nos desencontrando na casa dos 20 tios que temos em comum.

Em 2007 morreram a irmã e a mãe de um amigo meu que considero um irmão. Pessoas que sempre tinham um grande sorriso no rosto quando me encontravam, que sempre queriam saber se eu estava bem, que sempre davam um jeito de preparar algo gostoso quando nossa turma de amigos íamos à chácara da família delas. Ficaram fotos de momentos muito felizes de minha adolescência e juventude, em que elas aparecem em algumas.

E morreu minha madrinha Dora, a risada mais gostosa que já conheci e o abraço mais apertado em que já fui envolvido. E morreu meu tio Antônio, depois de uma triste e penosa história de abandono por parte dos filhos dele. Morreu dona Belinha, minha ex-sogra, um poço de generosidade e atenção.

Não estou aqui reclamando dos desígnios que tiraram tantas pessoas de minha convivência. Estou apenas especulando que essas circunstâncias podem ser uma explicação para o fato de eu estar pensando tanto na morte ultimamente. Acho que é um misto de medo, curiosidade, impotência. Tudo junto. Fico temeroso por meus pais, pelas minhas irmãs, meus sobrinhos, meus amigos. Fico temeroso um pouco por mim também, mas de uma forma menos acentuada.
Vivendo muito na estrada, como estou agora, já passei vários sustos. Caminhões que lhe fecham, aquaplanagens que quase te tiram da pista, freadas bruscas para evitar acidentes. Sempre me benzo antes de iniciar essas viagens que se tornaram rotineiras. Jeito de evitar a morte? Talvez. Mas devo confessar que a morte também tem seu lado fascinante, misterioso, instigante.

Fico imaginando como será do outro lado, como será quando o coração para de bater, quando suas lembranças acabaram, seus sentimentos se extinguiram, quando suas sensações desapareceram. Como será o fim?

Fico enumerando quem poderia chorar a minha morte. Seriam poucos ou muitos? Quantas das lamentações seriam sinceras? Quanto tempo levariam para me esquecer? Será que meus amigos que estão distantes viriam para a despedida final? Por quanto tempo ficariam tristes antes de voltar a sorrir? Quantos escreveriam que teriam saudades em seus blogs?

Sei que é estranho pensar nisso, mas eu penso. Sou melancólico e talvez um dos meus maiores defeitos seja exatamente pensar demais na morte e de menos na vida. Mas temperamentos não mudam facilmente. Fazer o quê? A morte ronda a todos nós, sempre, o tempo todo. Quando menos se espera, ela ceifa. Qual será o gosto de sua lâmina?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Vossas Excelências



Gilmar 0 x 1 Barbosa

Gilmar Mendes teve o que mereceu.

Viva Joaquim Barbosa!!!!!!!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sobre Passarinhos




Fotos: Nunes D'Acosta


Fiz uma matéria sobre passarinhos.
Para muitos, muitos colegas, e bota muitos colegas nisso, esta é uma matéria absurda, irrelevante, um jeito Poliana de ver a vida. Essa crítica poderia ter vindo de mim alguns dias atrás. Torci o nariz para a pauta, mas depois fui descobrindo que nos pássaros pode estar o que falta a uma boa parte do jornalismo atual: um tantinho de poesia.
Não se faz mais poesia nos jornais. Nosso gênero preferido é a tragédia, como se a vida fosse tão somente trágica e nunca, jamais, nem por meros instantes, poética.
O jornalismo deve tentar registrar o mundo em que está inserido e não inventei os passarinhos de Goiânia. Eles estão por aí, assim como os bandidos, os pedófilos, os políticos corruptos, as menores prostituídas e os desempregados. Todos eles constituem a pluralidade do mundo.
Os passarinhos me renderam elogios pelo lindo trabalho gráfico feito por André Rodrigues, que também gostou de lidar com os seres alados que quase nunca são notícia.

O mundo ficou melhor com a matéria sobre os pássaros? Não, assim como também não ficou melhor com a matéria sobre o sequestro, sobre o desvio de verbas públicas, sobre os estragos das chuvas. O jornalismo não deve se arvorar à misão de deixar "o mundo melhor". Isso é bobagem, retórica de quem acha que tem esse poder, mesmo não fazendo questão nenhuma de usá-lo, caso, de fato, ele funcionasse.

Mas o mundo também não ficou pior. Quem sabe alguém, lendo a matéria, em algum minuto de seu dia, resolva olhar para cima para tentar ver um pássaro. Se fizer isso, terá deixado de lado, por um instante, a preocupação com a crise, com a violência, com a desonestidade alheia. Já terá valido a pena escrever uma matéria tão desimportante.